sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Resenha do Livro: Chatô, o Rei do Brasil


Por Thiago F. Peixoto

Fernando Morais em seu livro “Chatô, o Rei do Brasil”, narra a biografia do homem que foi o grande responsável por escrever parte dos fatos mais importantes que estão cravados na história do país. Dono de uma das maiores redes de comunicação que já existiu no Brasil, e que na época o rendeu a fama de “Cidadão Kane” brasileiro, em referência ao filme Orson Welles, Assis Chateaubriand Bandeira de Melo ou “Chatô”, como era conhecido, ironicamente, em sua infância, sofrera de gagueira, no entanto se tornou o maior comunicador que o país conheceu até a metade do século XX. 

Chatô, com o tamanho prestigio que alcançou, teve influência direta em todas as decisões políticas da época, seu poder era tão grande por sobre as autoridades que certa vez, para se ter ideia, ele fez com que fossem criadas leis que o favorecesse em questões familiares, para obter a custódia de sua filha; em outro de seus feitos, ele conseguiu, mexendo alguns de seus pauzinhos, se eleger Senador da Paraíba em um ano que, simplesmente, não deveria haver eleições, o Senador vigente estava apenas em seu segundo ano de mandato, o que, teoricamente, o obrigaria a aguardar mais dois anos pra se candidatar. Foi ele também elemento fundamental para que acontecesse o golpe militar, comandado por Getúlio, e em muitos outros episódios seu nome é protagonista, isso devido à vasta lista de veículos de comunicação que detinha, que garantia a ele o privilégio de poder mover a opinião pública sempre de acordo com seus interesses, e coitado do repórter que se atrevesse a publicar, em algum de seus jornais, um artigo que não fosse de acordo com seus ideais políticos, segundo ele mesmo, quem quisesse ter opinião que montasse o próprio jornal, como ele fez. 

Embora esta ser uma sugestão dada pelo próprio, não era tão fácil ser seu adversário ou concorrente. A ética nunca foi um de seus pontos fortes, principalmente quando o assunto era sua relação com seus inimigos. Certa vez, em uma de suas brigas com o dono da Votorantin, ele interrompeu a cena de uma novela que ia ao ar ao vivo naquela época, na TV Tupi, da qual era dono, e entrou no cenário, parou em frente à câmera e fez um longo e ríspido discurso xingando a empresa e seu dono. 

Apesar de ser um homem com pouco mais de 1,50m de altura, sua ambição nunca esteve compatível a seu tamanho, pelo contrário, muitas vezes ela o fazia passar, ou melhor, atropelar, qualquer um que ficasse em seu caminho. Por outro lado, Chatô fez muitas coisas boas pelo país, foi ele, por exemplo, o responsável por trazer o primeiro aparelho de TV para o Brasil. Além disso financiou diversos projetos em prol do nosso desenvolvimento, que iam desde propor doações de aviões para treinamento de novos pilotos da aeronáutica, até a fundação do MASP e diversos outros museus por todo Brasil. 

Com o intuito de trazer novas matérias para sua revista, O Cruzeiro, Chatô foi o primeiro a organizar expedições ao Amazonas em busca de diferentes espécies e tribos indígenas naquela floresta até então desconhecida. Por incrível que pareça, em nenhuma dessas peripécias Chatô precisou gastar um mísero tostão de seu bolso, conseguia tudo o que precisava utilizando um método muito eficiente. Por meio de chantagens, ele propunha à burguesia, composta pelos grandes empresários da época, que doassem as verbas necessárias para concretizar estes projetos, e todos eles acatavam sem titubear, quem ousasse se contrapor, que arcasse com as conseqüências de sua língua afiada denegrindo a imagem do “muquirana” em todos os seus jornais. Vez ou outra ele, que sempre carregou a fama de mau pagador, era acusado de desviar um montante das verbas desses projetos para fins pessoais, mas obviamente, nada foi provado. 

Dentre as coisas que esse pequeno grande homem, oriundo do vale da Paraíba, mais apreciava, a arte seguramente era uma das que mais o cativava. Possuía uma vasta coleção de renomados quadros, pintados pelos mais ilustres artistas internacionais, todos doados ao MASP após sua fundação. Como jornalista que era, outra de suas grandes paixões, foi a escrita. Ainda que, certamente, possuísse uma das letras mais horrorosas que já existiu, foi através dela que construiu todo o seu império, e que o rendeu, na época, uma cadeira na academia brasileira de letras. 

Apesar desse amor declarado às letras, havia ainda uma coisa que superava seu prazer pela escrita, as mulheres. Por toda sua vida elas sempre estiveram presentes, inclusive enquanto casado, aliás mesmo após ter ficado tetraplégico em virtude da trombose. Mesmo nesta etapa de sua vida ele fazia questão de visitas íntimas, não que ele pudesse fazer muita coisa, no máximo um sexo oral, ou receber algumas carícias por parte da moça, mas era importante para ele sentir-se ainda ativo, mesmo naquela situação. 

Algum tempo antes de morrer, talvez por pressentir que isso aconteceria, Chatô fez um testamento doando quase metade do seu império à seus funcionários, o que obviamente provocou uma grande revolta entre seus familiares, porém, com a parte restante, ele fez uma lista de pouco mais de 20 nomes, que incluíam familiares e amigos, e os doou. Com sua morte o Brasil perdeu um ilustre e apaixonado representante de sua terra, que certamente, muito lutou por ela, mas que como todo grande mito, um dia teve que partir. 

A obra de Fernando Morais é digna de aplausos e reverencias. Especialista em biografias, nessa ele mostrou todo seus talento e minucioso trabalho de pesquisa para descrever e eternizar, de forma nobre e transparente, a história desse que foi um dos nomes mais importantes do nosso país.

Thiago de Freitas Peixoto é Comunicólogo,
 pós graduado Comunicação Coorporativa, poeta, 
compositor e vocalista da banda Apologia Groove.

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